Dr. Klinger Fontinele Júnior*
Os milenares ensinamentos contidos na obra intitulada “A Arte da Guerra” vem, através dos séculos, estimulando a criatividade dos mais diversos estudiosos da administração empresarial. Tal fato fomentou, de forma ímpar, o desenvolvimento de estratégias de ganhos e excelência laboral, culminando na conquista de novos mercados e ampliação dos já existentes. Nos serviços de saúde, a aplicação desses ensinamentos ainda esbarra na concepção cultural de que a saúde não deve ser vista como produto mercadológico, ou seja, não deve apenas visar lucro. Nesse sentido, considerando a simplicidade do significado acima exposto, tenho que concordar com a maioria das pessoas. Porém, ao fazermos uma análise mais detalhada e livre de tendências moralistas e/ou religiosas, perceberemos que, não o significado amplo de saúde, mais sim o de prestação de serviços para mantê-la ou reconquistá-la, nada mais é do que uma atividade profissional que oferta serviços (procedimentos e técnicas) e tecnologias (equipamentos) para uma clientela específica (pessoas portadoras de patologias quaisquer). Se nos serviços privados de saúde já encontramos esta intolerância por parte da sociedade, dá para se imaginar a dimensão dessa intolerância no campo público. Nesta seara, há que se considerar o estabelecimento de uma relação contratual tácita, ou seja, apesar de não haver pagamento direto pelos serviços recebidos, a população os paga religiosamente em impostos recolhidos. Nesse sentido, tem o direito de cobrar a excelência dos serviços ofertados. Poderia o incauto raciocinar que se a relação contratual é tácita – obrigatória para os funcionários públicos na prestação de seus serviços – para que serviria a preocupação dos mesmos em conquistar essa clientela, já que a mesma, até pela própria condição caótica do Estado, é excessiva e incontável? A resposta para tal pergunta, apesar dos problemas adstritos, é deveras simples, senão vejamos: se a instituição e seus profissionais empenham-se na prestação dos serviços à população, a mesma, recebendo uma assistência de qualidade, diminuiria o tempo de permanência nas unidades assistenciais e aumentaria o intervalo de procura das mesmas, economizando cifras milionárias para os cofres da Nação. Nesse sentido, e seguindo o raciocínio, se eu, enquanto cliente desses serviços, os recebo com qualidade e excelência, passo a acreditar nos mesmos, dispensando outros serviços terceirizados que apenas “tapam buracos” da administração pública, enriquecendo poucos e fomentando a política do “quanto mais doentes, mais lucros à vista”. Passando a acreditar nos serviços públicos ofertados, passo a fomentar o pagamento dos impostos que subsidiaram meu tratamento, além de desenvolver a preocupação em participar ativamente da fiscalização dos recursos destinados aos mesmos. Contextualizando a arte da guerra em nossa realidade – o que já é extremamente difícil – encontraremos, na figura de nossos gestores, os generais de Sun Tzu; e, na figura de nossos governantes, seus soberanos. Até aqui, parece fácil e simples tal comparação, porém ao considerarmos nossa realidade, veremos que a simplicidade dá lugar a um complexo emaranhado de papéis e funções. Na época de Sun Tzu, os soberanos governavam livres de influências que lhes significassem risco de perda da soberania; em nossos tempos, a política dita as tendências, deixando nossos “soberanos” como verdadeiros reféns do poder. Nos tempos de Sun Tzu, os generais eram audazes, fortes, de moral elevada, e eficientes na conduta das batalhas; em nossa época, os gestores são fracos, nomeados por interesses ou acordos políticos, grande parte de moral no mínimo questionável, e totalmente ineficazes na gerência dos serviços públicos. Seguindo esse raciocínio, parece impossível a justaposição dos ensinamentos da arte da guerra com a realidade brasileira, porém não o é. Urge uma mudança de paradigmas, um resgate da ética, uma reconstrução de valores. Educação e saúde, por andarem juntas, podem significar o início de uma mudança radical. Nessa assertiva, a enfermagem – detentora que é dos conhecimentos fundamentais da educação e da saúde – tem nas mãos a possibilidade de revolucionar as tendências na oferta dos serviços de saúde. Para isso porém, temos que tomar a consciência de que somos profissionais, e como tal, podemos assumir funções e papéis de extrema importância na sociedade. Temos que incorporar o planejamento para sermos “soberanos” e “generais”, deixando de sermos apenas “combatentes”. Se sabemos fazer bem feito, porque deixamos que outros o façam? Se somos gerentes em potencial, porque deixamo-nos gerenciar por outros que o fazem displicentemente? Se sabemos convencer, porque calamos frente a outros que só sabem gritar? Se podemos ser “os”, porque nos contentamos em ser apenas e simplesmente “uns”? Acordem profissionais de Enfermagem, tendes em vossas mãos os princípios da arte da guerra, basta aprender usá-los!
*Enfermeiro Especialista em Formação Pedagógica. Pesquisador em Ética, Bioética e Legislação de Saúde. Escritor. Articulista. Assessor Técnico da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado do Amapá.
Autor: Klinger Fontinele Júnior |